Nem senha nem documento

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Nunca me formei em jornalismo. Era advogado, mas um dia, em outubro de 1962, passei em frente ao Jornal do Brasil na Avenida Rio Branco e entrei.

Perguntei ao porteiro:

- Onde fica o Carlos Lemos?

- No terceiro andar.

Não me pediu o CPF nem me deu senha.Peguei o elevador. Me informei com alguém, ao sair lá em cima. O Lemos ficava em uma pequena sala, à esquerda. A conversa foi simples e direta. Eu conhecia o Lemos desde quando, uma vez, nem sei indicado por quem, ele apareceu no apartamento de meus pais, na rua São Salvador, em Laranjeiras.

O objetivo era estudarmos, os dois, para o Vestibular de Direito. Passei tanto na Faculdade de Direito da PUC, que ficava ao lado do Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente, quanto na do Distrito Federal, na rua do Catete. Era o ano de 1955. Não sei se o Lemos também passou na PUC, mas o fato é que vim a reencontrá-lo na rua do Catete. Eu preferira ir para lá não apenas porque a Faculdade era gratuita mas também porque tinha aulas à noite. Era algo que me convinha, por razões econômicas e também porque eu trabalhava durante o dia, na Companhia Siderúrgica Nacional, no Departamento de Ações.

Lá, na rua do Catete, o mais das vezes, Lemos, eu e outros ficávamos no botequim em frente, conversando sobre o rumoroso caso da “Carta Brandi”, com discursos diários de Carlos Lacerda, na Câmara de Deputados, contra a candidatura Juscelino Kubitschek/João Goulart, na eleição presidencial de outubro daquele ano. Lemos tinha sempre as últimas notícias, pois era repórter da Tribuna da Imprensa, cujo dono era o próprio Lacerda. Provou-se depois que a carta, tratando de um suposto tráfico de armas e organização de brigadas sindicais, era falsa. Bem, o tempo passou, eu continuei na Faculdade mas o Lemos sumiu. Não chegou a se formar.

Mas nos reencontramos naquele dia, em outubro de 1962. Fui direto ao ponto. - Olhe, Lemos, gosto de escrever e pensei em trabalhar aqui no JB. (Abro um rápido parêntese: o JB já estava se tonando o jornal da moda, superando O Globo. Fecho o parêntese.) - Fazendo o quê? - Bem, que tal experimentar o futebol? Vou ao Maracanã todos os domingos…

Lemos me levou à Seção de Esportes. Era chefiada por Fernando Horácio, baixo e já meio barrigudo, tagarela. Ele chamou um repórter chamado Dácio de Almeida e combinou: “amanhã você se encontra com o Zé Inácio lá no treino do Fluminense e explica a ele o que ele tem que fazer”.

É difícil de acreditar hoje, mas tudo era assim: rápido, direto, sem cerimônias, sem complicação. Eu apareci no Fluminense, o que me era muito conveniente, pois ficava na rua Álvares Chaves, bem perto do apartamento em que morava com meus pais. Dácio me apresentou ao técnico Zezé Moreira, assisti ao treino, passei no vestiário, de tarde fui à redação, me ensinaram a fazer um “lead’ (na verdade, mais conhecido como “lede” em inglês, mas isso é outra conversa): o que, quem, quando, onde, por que… Escrevi a matéria. Fernando Horácio aprovou. Em pouco tempo descobri-me oficialmente contratado. Passara por um rápido período de estagiário. Mais do que repórter, descobri-me também na função de “copydesk”, reescrevendo matérias de outros repórteres considerados “folclóricos”, como Arthur Parahyba e Apolônio Barbosa.

Eram assim naturais as coisas naquele JB de 1962, um jornal que estava abrindo novas perspectivas à imprensa brasileira. O ambiente na redação, principalmente para quem começava a trabalhar depois das seis da tarde, quando não havia mais perigo da Condessa e do dr. Nascimento Brito (ele fazia questão do “Dr.”) darem o ar de sua graça, era descontraído. Tarde da noite então era um “liberou geral”. As mesas eram afastadas e disputavam-se peladas de futebol com bolas de papel, em que Dácio “Malandro” de Almeida esboçava tentativas de “bicicletas” no chão duro. Eram também os momentos em que Waldir Figueiredo, Editor do Caderno de Automóveis, invadia a Seção de Esportes, aos gritos de “cadê aquele peruzinho de cristal?”, ameaçando apalpar as partes íntimas do recatado católico Marcos de Castro, que se refugiava sob a mesa.

Passei pelo Caderno de Automóveis, onde despertei a ira do Lemos, por ter certa vez escrito um artigo sustentando que os motoristas dos “lotações”, pequenos ônibus que aterrorizavam o trânsito carioca, eram na verdade excelentes profissionais do volante. Que eu me lembre, meu primeiro texto assinado foi uma entrevista com Agustin Valido, um argentino que se tornara famoso porque marcara o gol que dera ao Flamengo o tricampeonato de 1942-1943-1944. O fato de que o gol fora marcado ilegalmente, com a mão, tornara-o ainda mais amado pela torcida do clube e o mais curioso é que em 1944 ele tinha se aposentado do futebol e montara uma gráfica. Um dia, jogando na Gávea uma “pelada”, com operários de sua empresa, foi observado pelo técnico Flávio Costa, que o convidou para um retorno temporário aos campos. A seção de esportes era uma das que davam mais oportunidades de viagens ao exterior e comecei por uma ao Paraguai que me permitiu reportar não só dois jogos lá disputados pelo Fluminense como descrever uma marcha militar, comemorativa da independência do país, em que alguns soldados desfilavam descalços. Relatei também o retorno ao Rio em um avião em que chovia dentro, obrigando o massagista “Pai Santana”, assim chamado por seu apego ao candomblé, a proteger-se com um guarda chuva.

Em 1965 fui com a Seleção Brasileira à África e Europa. Mais fatos inusitados despertavam minha curiosidade: na Argélia, a revolução que depôs Ben Bella e, na União Soviética, o jornalista Ricardo Serran, de O Globo, preso em uma cela no aeroporto de Moscou porque tentara entrar sem visto no país. Esta viagem e mais a cobertura da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, me despertaram o interesse por uma vida fora do Brasil e acabei no Serviço Brasileiro da BBC de Londres.

Tudo era simples, direto, informal naquela época. Alberto Dines, o Editor-Chefe, tinha uma pequena sala, contígua à do Lemos, que era o Chefe da Redacão. Ele me chamou antes de minha viagem e disse: “Olhe, eu gostaria que você mandasse umas histórias de Londres, mas não muitas, porque o JB tem um correspondente lá, um inglês. Ele é amigo do dr. Brito e vai reclamar se achar que está sofrendo concorrência”.

Aquilo até me convinha, porque minha intenção era desfrutar ao máximo da “swinging London”, a capital mundial mais badalada na época, com as mini-saias, a modelo Twiggy, os Beatles, a Sloane Square, a King’s Road. Só mandei mesmo duas matérias no ano em que lá estive: uma sobre os conflitos entre católicos e protestantes, na Irlanda do Norte, e a outra sobre o Festival de Rock da “Isle of Wight”. Nesta última, na praia, me achei de repente ouvindo a conversa, em português, sobre personagens da praia de Ipanema, de um casal brasileiro que se banhava “au naturel”.

Talvez isto tenha me valido, na volta ao Rio e ao JB, um convite para acumular a Seção de Esportes com o Caderno B, então comandado pelo Paulo Afonso Grisolli, com Marina Colassanti na subchefia. Lá escrevi o que talvez tenha sido meu melhor texto no JB, mas que acabei não assinando, contrariando um pedido do Grisolli. Era sobre o jogador Fio, do Flamengo, que tinha sido homenageado por Jorge Ben (depois Jorge Ben Jor) com a canção “Fio Maravilha”. Deve ter sido no ano de 1972 ou 1973 mas, como não a assinei, nunca mais consegui localizá-la.

Como contraste, podendo oferecer apenas a desculpa de ser um recém-chegado ao Brasil, entrevistei uma pessoa que falava da “Mãe Menininha do Gantois” e chamei a famosa ialorixá de “Menininha do Gantuá”. Quase fui demitido, apesar de uma legítima alegação de alheamento a acontecimentos baianos… Ah, no Caderno B escrevi também uma coluna sobre restaurantes, com o pseudônimo de Marco Rubião. Acabaram descobrindo que eu nada entendia de culinária…

Outras coisas me aconteceram na velha sede da Avenida Rio Branco, como uma passagem pelo venerável “Copydesk da Geral”, ao lado de sumidades como Hélio Pólvora e Lago Burnett. Ao fim de dois meses, pedi para sair, porque o “copydesk” trabalhava invariavelmente até as 11da noite, quando não mais tarde, e naquela ocasião eu tinha três empregos: cedo pela manhã como advogado na Companhia Siderúrgica Nacional, na Avenida 13 de Maio, depois redator da Enciclopédia Bloch, na Praia do Russell, e finalmente Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco. Lemos então me despachou para ser Repórter Especial, mas, ao fim de um frustrante dia correndo inutilmente por repartições do governo federal, disse que queria mesmo era voltar para a Seção de Esportes. Lá acabei como colunista e, mais tarde, Editor da Revista Viva e Diretor da Maratona do Jornal do Brasil, mas isto só foi mais tarde, quando já tínhamos sido despachados para a Avenida Brasil.

Um belo dia o Carlos Eduardo Novaes, que eu conhecia de longa data mas que não via há quase dez anos porque ele tinha ido para a Bahia, me aparece na Avenida Rio Branco e começa a escrever sobre a Loteria Esportiva em tom de piada. Todos os outros jornais encaravam o assunto com grande seriedade. Dali para se tornar grande cronista no Caderno B foi um pulo…

Na velha redação da Avenida Rio Branco, praticamente todo mundo tinha apelidos. Eu era o “Moderno”, alcunha a mim imposta por Oldemário Touguinhó, ele mesmo conhecido como “Porco” (ignoro o motivo). Luiz Lara Resende, irmão do Otto Lara, era o “Gato Lara”. Roberto Porto, “a maior preguiça do Brasil”. Sérgio Noronha, “a nega Noronha” (ninguém era politicamente correto), João Máximo era “Fumaça”, mesmo depois de deixar de fumar. Milton Costa Carvalho atendia como “Milton Siri”, abreviatura de seu verdadeiro apelido, que era “Siririca”. Ari Gomes destacava-se como “Ari Cagada”.

Mas a mudança para a Avenida Brasil corroeu a atmosfera descontraída e adequada a um jornal. As diversas seções fechadas, trancadas em salas, sem se comunicarem, secretárias obstruindo o acesso ao Editor Chefe Walter Fontoura e ao Luiz Orlando, que assumira a Chefia da Redação depois da saída do Carlos Lemos… Na Avenida Brasil o Jornal do Brasil começou a deixar de ser o Jornal do Brasil. Não tínhamos mais a Joyce, a telefonista que sabia da vida de todo o mundo e, dizem, namorava o Carlos Drummond de Andrade, nem as visitas do Wilson Figueiredo, universalmente conhecido como Figueiró, para discutir futebol. Até mesmo os gritos do tonitruante Salim Simão - que em sua ecléticas amizades colecionava desde o dr. Brito ao Sandro Moreira, João Saldanha, o correspondente francês Alain Fontan e o pitoresco argentino Lamana - não retumbavam mais como outrora.

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