Doutrina de Monroe? Que doutrina?

Neste fim de ano, o governo de Donald Trump publicou um “relatório” de “Estratégia de Segurança Nacional”. Além dos costumeiros chavões de “America First”, a administração Trump disse que “reafirmaria e reforçaria a Doutrina de Monroe, para restaurar a supremacia americana”.

O relatório tem muito a ver com as óbvias intencões do governo Trump de desestabilizar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, a partir das apreensões de petroleiros, destruição de embarcações no Caribe, com a morte de seus tripulantes, e talvez uma invasão do país.

Mas a verdade é que a “Doutrina de Monroe” nunca existiu na boca de James Monroe, presidente dos Estados Unidos em 1823.

Tudo o que ele fez, na esteira da independência de colônias européias como a Venezuela, a Argentina, o Brasil, foi dizer que os países europeus precisavam desistir de manter possessões no continente americano, de norte a sul.

Foi necessário que mais de duas décadas decorressem até que um outro presidente, James Polk, invocasse a suposta “doutrina” para tomar a Califórnia do México, com a desculpa de que a Coroa inglesa estava interessada em se apossar daquele pedaço de terra.

De lá para cá o pobre México perdeu mais de metade de seu território para os Estados Unidos e outros invasões se sucederam, algumas bem claras e à luz do dia, outras disfarçadas, como a que levou à queda do governo Allende no Chile, planos para enviar uma força naval ao Brasil se o golpe militar de 1964 não fosse bem sucedido, a “Operacão Condor” no Cone Sul, etc.

Mas não culpem James Monroe por uma doutrina que ele nunca formulou.

Se a Doutrina de Monroe prevalecer em termos políticos internacionais, então precisaremos admitir seu óbvio corolário: a Rússia pode invadir países europeus (e até asiáticos, dada sua extensão geográfica) e a China também tem o direito a incursões militares na vizinhança oriental.

Em suma, a lei do mais forte, o estilo “cowboy”, danem-se os processos civilizatórios da humanidade. E não venha Donald Trump com a desculpa de que a Groenlândia é uma “colônia europeia”, nos termos colocados por James Monroe: a constituição da Dinamarca explicitamente declara que a ilha é um “território autônomo” com direito de se separar do governo de Copenhagen por votação de sua população.

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